Algumas memórias e um feliz Natal

Neste dezembro, mais do que em qualquer outro, tenho sentido muita saudade dos natais que passei na casa dos avós Alencar e Regina. Quando dou por mim, ali estou, de olhos abertos a lembrar da mesa redonda na cozinha que já amanhecia posta com as xícaras de vidro bege leitoso que mais pareciam de louça e com as garrafas térmicas brancas, bojudinhas e gêmeas, uma com café e outra com água quente para o leite em pó da vovó. Quando percebo já adentrei a sala, pisando macio no carpete, admirando o brilho do lustre de cristal sobre a grande e pesada mesa de jantar. Há também um relógio de corda pendurado na parede e seu eterno (?) tic-tac me lembra que ainda faltam boas horas até o 24 se tornar 25 e podermos, finalmente, abrir os presentes. Esse será o grande momento de desvendá-los porque já foram minuciosamente analisados e cuidadosamente recolocados – não quero levantar suspeitas, claro – debaixo da árvore que está no outro canto da sala: linda, alta, como as que vemos em filmes americanos. Inclusive desconfio que ela tenha vindo mesmo de lá, junto com suas bolas inquebráveis, revestidas de um fno sedoso, que dividem espaço com outros enfeites e com os passarinhos. Sim, nela há passarinhos que parecem de verdade e que são macios e delicados ao toque; seus pezinhos se engancham nos galhos do pinheiro e lá permanecem, rodando junto com a árvore e piando baixinho para embalar o menino Jesus que descansa no presépio sobre o aparador ao lado. De repente entra uma brisa fresca e meus olhos se distraem com a fina e transparente cortina que dança na entrada da varanda, contrastando com outra, pesada, porém nada austera. Dali é possível vermos a Rua Nova bem de pertinho, movimentada com as compras de última hora. Até penso em descer para participar daquele movimento alegre, mas ouvi minha vó avisando que o almoço está servido; então, se me dão licença, vou lá almoçar com a minha família.

Um bom Natal a todos. Desejo para vocês momentos felizes, desses que a gente ri, brinda e todos se iluminam; desses que a gente vive uma vez e faz questão de reviver outras tantas.


À família querida que faz parte dessas lembranças e que constrói outras no presente.

Já o serviço de saúde britânico afirma ser possível ter ereção ingerindo uma pílula até quatro horas antes .

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10 comentários

  1. Margarida Maria Leal diz:

    Maria,

    Lindo compartilhamento de memória!
    Me fez recordar de um natal sonhado…
    Me fez lembrar muito o poema da Adélia Prado.
    Parece que a gente se reconhece na memória do outro…
    Pra você:

    A Casa (por Adélia Prado)

    É um chalé com alpendre,
    forrado de hera.
    Na sala,
    tem uma gravura de Natal com neve.
    Mas afirmo que tem janelas,
    claridade de lâmpada atravessando o vidro,
    um noivo que ronda a casa
    – esta que parece sombria –
    e uma noiva lá dentro que sou eu.
    É uma casa de esquina, indestrutível.
    Moro nela quando lembro,
    quando quero acendo o fogo,
    as torneiras jorram,
    eu fico esperando o noivo, na minha casa aquecida.
    Não fica em bairro esta casa
    infensa à demolição.
    Fica num modo tristonho de certos entardeceres,
    quando o que um corpo deseja é outro corpo pra escavar.
    Uma idéia de exílio e túnel.

    Um abraço,
    Margarida

    1. Muito obrigada pelo carinho, Margarida. Eu não conhecia esse poema e adorei. Ando inclusive em busca de novas leituras e Adelia Prado foi uma boa lembrança.
      Grande beijo e um ano lindo pra você, André e Francisco.

  2. izabella medeiros diz:

    que lindo, maria! suas palavras me emocionaram…

    que por mais um ano sua vida seja recheada de amor!

    um beijo.

    1. A nossa, Izabella, a nossa… :)
      Beijo!

  3. Que lindo !!!!!

    Nesta época a gente sempre sente uma saudade enorme da infancia

    e principalmente do Natal na casa dos avós.

    Da vontade de voltar no tempo….

    Feliz Natal e um Ano Novo cheio de coisas boas e PAZ

    1. Dá mesmo, Flávia… Mas já estou aqui, rodeada pela família, curtindo essa saudade com muitas fotos daquele tempo. :)
      Beijo e um 2012 lindo pra você.

  4. Cristina diz:

    Por vezes penso que as lembranças são como uma grande despensa, que mantem as portas abertas e para qual corremos qdo temos fome…fome de momentos felizes! e agradeço por cada um deles!!

    Um Ano Novo recheado de delícias, regado com saúde e alegria!!

    Cristina

    1. Boa comparação, Cristina. É a despensa para as fomes da alma. :)
      Um Ano Novo lindo pra você também. Beijo!

  5. emanoel+rocha diz:

    Lindo seu texto e de uma grande sensibilidade, que Deus ilumine seus dias e sua mente no proximo ano pra que possas nos brindar com textos tão bonitos e receitas tão gostosas, felicidades mil Maria!!!!!

    1. Muito obrigada, Emanoel. Assim seja!
      Desejo um belo ano para você e agradeço por todas as visitas e comentários carinhosos com os quais você me presenteou em 2011. :)

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